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A pauta ambiental tem, gradativamente, ocupado mais espaço e tempo na mídia brasileira, o que, à primeira vista, se constitui em um fato novo e promissor, a ser saudado com entusiasmo por aqueles (em tese, deveríamos ser todos nós) que estão comprometidos com o futuro do planeta. Mas (sempre há um "mas" neste mundo complexo e controvertido em que vivemos) necessariamente quantidade não se traduz em qualidade.
Uma cobertura ampla não significa cobertura qualificada e os exemplos se contam às dezenas. Os cadernos alentados de política, economia e mesmo de esportes, que caracterizam a imprensa nacional, não têm garantido, para essas áreas, uma cobertura exemplar. Muito pelo contrário, sobretudo se os critérios de análise incluírem indicadores associados à cidadania, como a pluralidade de fontes, a independência em relação aos interesses políticos e comerciais, a exigência de limites definidos entre informação e marketing e assim por diante.
A qualificação da cobertura ambiental passa, obrigatoriamente, pela capacitação dos jornalistas, pela conscientização de editores e empresários da mídia, pela independência editorial dos veículos, pela vigilância com respeito às fontes (cada vez mais comprometidas nesta área com os grandes interesses empresariais e políticos) e inclusive pela educação da audiência (leitores, telespectadores, ouvintes e internautas). Considerados estes aspectos, estamos ainda longe de atingir um patamar ao menos razoável para a cobertura da temática ambiental em nosso País.
Em primeiro lugar, manipulamos os conceitos inadvertidamente e, em alguns casos, de forma propositalmente irresponsável. Estamos presos a uma perspectiva de meio ambiente que não nos inclui, descontextualizada, que distancia o meio ambiente da economia, da política, da cultura e da sociedade, muitas vezes reduzindo-o à contemplação de situações específicas e aparentemente longínquas, como o desmatamento da Amazônia, o degelo na Antártida e a extinção das baleias. Confundimos sustentabilidade com otimização dos negócios, desenvolvimento sustentável com crescimento econômico e nos colocamos reféns de dados e estatísticas gerados por governos e empresas que apenas desejam legitimar suas mazelas em relação ao meio ambiente e aumentar o seu poder e seus lucros. Por isso, continuamos falando em "floresta de eucaliptos" (que floresta é essa que só tem valor quando derrubada?), "produção de minérios" (ninguém produz nada, só extrai!) e não percebendo, apesar do discurso contrário, o vínculo entre as empresas de biotecnologia, as empresas agroquímicas, as de sementes e as de saúde, e agora com um olho gordo (obeso) sobre as que produzirão biocombustíveis. Afinal de contas, apesar do discurso contrário aos agrotóxicos (transgênicos usam menos agrotóxicos, repetem elas, o que não é sempre verdade) elas ganham ainda (ou não?) dinheiro, muito dinheiro com os pesticidas em geral. Afinal de contas, glifosato é remédio ou veneno, mata só pragas daninhas ou gente também?
Em segundo lugar, abrigamos fontes que nos são "vendidas" por agências e assessorias a serviço de interesses predadores, muitas vezes hipocritamente legitimadas por créditos que remetem unicamente à titulação no campo da ciência (professores doutores, prêmios Nobel, presidentes de sociedades científicas etc) e escondem outros vínculos comprometedores. Temos deixado de perceber que pesquisadores ou cientistas podem estar também comprometidos com interesses comerciais. O chefe de Pesquisa & Desenvolvimento que defende e refina a tecnologia "round-up" é cientista ou funcionário de uma corporação? Quando ele fala para a imprensa, fala em nome de quem? Seria capaz de pensar por conta própria ou a sua auto-censura o remeterá obrigatoriamente a defender os transgênicos? É justo acreditar em quem se empenha e é pago para defender determinadas posições e interesses?
A imprensa tem acreditado que as raposas podem tomar conta impunemente dos galinheiros. Participa de coletivas mal intencionadas, reproduz releases propagandísticos (no mau sentido), delicia-se com a voz melosa de fontes prestigiadas que não passam de bocas alugadas de empresas e entidades.
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