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Bisturi ou merthiolate?
Finalmente, pela sua condição de campo inter e multidisciplinar, complexo, as ciências do meio ambiente exigem dos que nela militam e dos que as cobrem um tempo maior de maturação. Devemos ter a humildade necessária para concluirmos que temos ainda muito a aprender nessa área e que o aprendizado nos obriga, nesse campo que pode estar minado por interesses de toda ordem, a uma dose maciça de ceticismo. Suspeitar das fontes, suspeitar das verdades contundentes, suspeitar daqueles que nos entregam informações de mão beijada e que preconizam visões cinicamente otimistas ("os transgênicos vão matar a fome do mundo", "a tecnologia vai libertar os homens", "os biocombustíveis são a salvação do planeta" etc etc).
A cobertura ambiental qualificada pressupõe o abandono do "jornalismo light", louquinho para acreditar em milagres e indulgências (termo feliz cunhado por Marcelo Leite em artigo no Caderno Mais, da Folha) e que tem aderido vigorosamente ao "marketing verde" . O jornalismo ambiental autêntico deve constituir-se antes de tudo em uma militância cívica (que nada tem a ver com militância político-partidária ou anarquista). O compromisso com o meio ambiente não deve se reduzir ao plantio de árvores ou em comer docinhos orgânicos, ainda que estas atitudes possam ser incentivadas. O jornalismo ambiental não deve tapar as feridas abertas com "band-aid" ou imaginar que elas cicatrizarão com "merthiolatte" porque a realidade é muito mais dura e mais ardida. A solução para o "imbróglio" ambiental em que nos metemos exige uma cirurgia de alto grau de complexidade e a sociedade (e os jornalistas) não deveriam acreditar que as mudanças poderão ser feitas sem dor ou sacrifício. Aqui é necessário bisturi, não cotonete.
É preciso, urgentemente, que os jornalistas abram mão de sua zona de conforto, se efetivamente estiverem dispostos a contribuir para a mudança. O jornalismo ambiental precisa inspirar-se no verde da floresta, que tem cheiro e identidade. O verde do marketing praticado por determinadas organizações é falso , insosso, insípido e inodoro, tem o vínculo nefasto com a monocultura, com a afronta à biodiversidade, com os que apenas enxergam o meio ambiente como oportunidade de negócios ou como entrave ao desenvolvimento. É fundamental dispormos de uma imprensa madura para o combate sem trégua ao marketing verde.
O jornalismo ambiental precisa estar radicalmente comprometido com a superação das desigualdades, com a alteração dramática dos padrões de consumo, com a preservação dos recursos naturais, com soluções que não excluam as minorias e que respeitem a diversidade. Como dizia o professor Paulo Freire, mudar é difícil, mas é possível. Aposto nisso.
* Jornalista, professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP e professor de Jornalismo da ECA/USP. Editor de 6 portais temáticos em Comunicação/Jornalismo. Diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa.
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