Entrevista / Ping Pong
Arte de Construir: umas das profissões mais antigas deveria ser mais reconhecida PDF E-mail
por Vivian Federicci   
Dom, 23 de Maio de 2010 20:02
Pedreiro Foto: Vivian Federicci
De grão em grão, tijolo a tijolo, sol a sol, ele ergue estruturas, transforma espaços, constrói casas, prédios, empresas, barracões... Essa é a função do pedreiro, uma das profissões mais antigas e mais requisitadas na atualidade. Até na ecologia, muito se fala em casas sustentáveis, cimento ecológico, bambu, pneus... Enfim, diversas matérias-primas ambientalmente corretas, mas o que passa batido é o artista por traz disso tudo. Desvalorizado, mal remunerado e desmotivado, são esses os adjetivos que definem a maioria dos pedreiros. José Ademir Simeão, 48 anos, pedreiro há 23, aceitou participar da nossa entrevista e conta um pouco sobre a função, medos e conquistas.

Como você se tornou pedreiro?

Foi quando eu vim para a cidade. Sai do sítio, larguei a roça e construí minha casa. Fui acompanhando outro pedreiro na construção e pegando o jeito, depois resolvi trabalhar nesse ramo porque era o que eu sabia fazer e também porque prefiro ser autônomo Com isso, acompanhei as obras e fui aprendendo, como era a única coisa que eu sabia fazer, foi com isso que arrumei trabalho.

E é melhor ser pedreiro do que trabalhar na roça?

Para ganhar sim, mas o serviço não. É uma responsabilidade a mais porque na roça é um serviço só, se for cata laranja, só laranja, cana é só cana.Na construção, todos os serviços são difíceis porque o serviço mais grosso é mais pesado e o os acabamentos exigem mais cuidado.

Você gosta do seu trabalho, considera sua renda boa?

Tenho ganhado melhor, fui conquistando mais clientes, desde que eu comecei nunca faltou trabalho, mas mesmo assim não condiz. A obra que o pedreiro realiza, com a benfeitoria que ele deixa. Não vou falar que eu gosto, eu agradeço por tudo que eu conquistei até hoje que foi graças ao serviço, mas não fico muito contente porque considero mal remunerado. O ganho do pedreiro eu acho pouco pela dureza do trabalho e pela grandeza do serviço porque a cidade é feita pela mão do pedreiro e é o que menos ganha pela benfeitoria.

É um trabalho muito duro?

É. Eu continuo porque não tenho outra opção, se eu conseguisse qualquer outro serviço que corresponde ao que eu ganho com esse, eu trocaria. Você vê, nós trabalhávamos sempre em família, eu e mais cinco irmãos, todos foram saindo, encontrando outros empregos, e o último que trabalhava comigo sai essa semana. Dos meus filhos, não deixei nenhum seguir essa profissão.

Já tentou deixar de ser pedreiro?

Já pensei em sair várias vezes, mas não é fácil. Gostaria de continuar na linha do trabalhador autônomo, um caminhão, uma propriedade rural, mas nunca fiz porque para conseguir isso teria que colocar minha residência em jogo e eu consegui ela com muito sacrifício, então, penso bem, porque para subir um degrau é difícil, mas pra cair é a coisa mais fácil.

Quais suas grandes conquistas pessoais e profissionais?

Não conquistei muita coisa não, só uma casa e um veículo. Não sobra quase dinheiro porque manter uma família sai caro. Eu tenho esposa e três filhos, é complicado. Pedreiro ganha mal, o certo seria manter a família e sobrar alguma coisa para reserva. Agora profissional, o que me dá orgulho é o reconhecimento e as obras que a gente faz. A gente chegava em um terreno, estava lá o matagal, quando acabava deixava uma casa pronta. Então, nunca faltou serviço, as pessoas sempre me procuram, isso é sinal que gostam do meu trabalho. Também nunca sofri acidente, graças a Deus, na minha equipe nunca teve.

Quais os sonhos e projetos para o futuro?

Ah, só ver os filhos se darem bem. Eu pago aposentadoria, mas só vou aposentar com 65 anos, isso se o governo não aumentar mais. Devia ser menos pela dureza desse trabalho, você acha que um pedreiro agüenta trabalhar até 65 anos? Para mim um pedreiro deveria ganhar em torno de R$ 3 mil e se aposentar mais cedo.
Última atualização em Dom, 23 de Maio de 2010 20:30
 
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