Saga do Destino: Do Nordeste para o corte de cana em São Paulo PDF E-mail
por Vivian Federicci   
Qua, 21 de Abril de 2010 15:54


Entrevista com José Vianey Foto: Vivian Federicci

José Vianey Pereira tem 25 anos, deixou a Paraíba para vir ao interior de São Paulo tentar a vida no corte de cana. Assim como muitos de seus conterrâneos, os nordestinos são atraídos para o sudeste em busca de melhores salários. De fato, os salários são melhores e o corte de cana vem sendo muito procurado, pois a árdua rotina é, muitas vezes, remunerada por produção. A repórter Vivian Federicci foi até um acampamento na cidade de Catiguá, onde muitos cortadores se abrigam e conversou com os simples trabalhador que em seu horário de folga contou os sentimentos de vitória e preconceito que traduzem o destino comum de um Brasil colonizado pela desigualdade entre os estados. A saudade de sua terra, a determinação e a crença na vitória embalam esse guerreiro que movimenta a indústria do açúcar e álcool.

 

 


As grandes usinas estão sempre na mídia apresentando novos projetos e oportunidades. Foi isso que motivou você a mudar de estado e tentar ganhar a vida com o corte de cana?

Na verdade o que me motivou foi a pobreza. Eu era agricultor, colhia milho, feijão e plantava. Até os doze anos eu morava em um sítio, mas depois minha família mudou para um povoado chamado Juru. Não tive oportunidade de estudar, cheguei a ir à escola, mas era muito longe. Meu pai trabalhava na roça e na cidade, ganhava pouco e não dava para manter a família então eu comecei ajudar, mas ganhava quase nada. Eu via na televisão passando sempre São Paulo, aqueles prédios enormes e pensei que deveria ser outra vida. Desde então fiquei com o sonho de conhecer e morar em um lugar descente.

 

E como foi a sua chegada?

Quebrei a cara. Pensava que ia viver em um lugar melhor. A primeira viagem que eu fiz foi para Boituva, morei em umas favelas que davam até desgosto. Uns barracos de madeira que você está dentro e vê quem passa fora pelas brechas da madeira. Quando era quente, era demais, e quando era frio, era muito também. Não tinha como agüentar, nem imaginava que existia um lugar desses. Eu passei um ano e oito meses ganhando R$15 por dia trabalhando como servente de pedreiro, não agüentei e voltei de novo para o Nordeste.

O que te fez deixar o estado novamente e tentar outra oportunidade em São Paulo mesmo com a má experiência?

Foi um colega meu que tinha acabado de voltar das usinas. Ele disse que o trabalho era muito bom e um cara que nem eu que é interessado em trabalhar ia se dar muito bem. Eu precisava ajudar a família, onde moramos é roça, chove pouco e não lucra muito, tive que sair para ganhar mais. 

O trabalho é realmente bom como o seu colega disse?

Trabalhamos cinco dias por semana e folgamos um. Nas horas livres jogamos baralho e dominó e assistimos televisão, mas não saímos muito, não temos para onde ir, aqui não conhecemos ninguém, só o ganho aqui é melhor. Lá o serviço era mais leve, quando chove você consegue vender um pouco, mas quase sempre a colheita é só para comer e tem que arrumar um dinheiro para viver de outras coisas. Se adoecer alguém, aí não tem condições. Bastante gente me dava conselho para não vir, falavam que cortar cana é ruim, mas eu pensei: “Todo mundo vai e se dá bem, porque eu vou ser o único que vou e não vai dar certo?” Então conversei com o meu pai e ele disse para eu ir, se eu não agüentasse o serviço era para eu voltar. Cheguei aqui em janeiro de 2002 e estou aqui desde então. Efetivei na usina e saio no final desse ano. Vim e me dei bem, graças a Deus!


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Última atualização em Qua, 21 de Abril de 2010 16:48
 

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