Desabafo de uma parceira PDF E-mail
por IA   
Seg, 21 de Dezembro de 2009 22:58

As muitas expectativas em torno de um provável acordo decorrente da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP-15, resultaram em frustrações e giraram em torno de premissas cujas intenções tiveram o seu eixo principal em decisões de cunho especialmente econômico e político: diminuir as emissões dos gases que causam o efeito estufa – o que pressupõe mudanças nos paradigmas de produção tais como a utilização de energias limpas e uso racional da água e do solo, dentre outras. Países como China e EUA se negaram a assumir, efetivamente, qualquer compromisso nesse sentido e aos países pobres, a oferta que fazem não vislumbra a preservação de recursos naturais, mas prevê uma “ajuda” para que as populações mais desfavorecidas se “adaptem” às mudanças climáticas (se bem conheço essas ajudas, significarão alguns sacos de dormir para que populações mais vulneráveis tenham onde se abrigar após suas casas serem levadas pelas enchentes – algo absolutamente impraticável para os habitantes de Tuvalu, a pequena ilha polinésia no Oceano Pacífico, por exemplo). 


No muito blá-blá-blá que permeou as discussões durante a COP-15, é flagrante a omissão do tema consumo e sua correlação ao tema produção, subjugando o aspecto social da questão a um segundo plano. Ou seja: se conseguirmos continuar produzindo, mas de forma “limpa”, poderemos continuar consumindo, sem qualquer sentimento de culpa e isso - para os poderosos líderes das nações mais ricas do mundo - é inegociável. Consumir, para políticos e economistas, é sinônimo de crescimento e este, a panacéia para todos os nossos males. Consumo, logo, existo! Esse é o motor psicológico da frágil humanidade contemporânea, e abusam desse pressuposto a indústria, a política, a economia, a publicidade, a moda... Nem as crianças são poupadas da ciranda interminável de mensagens publicitárias cujo único critério é empurrar bugigangas goela abaixo, mesmo daqueles que ainda não desenvolveram qualquer senso crítico para avaliar qualidade, utilidade, pertinência e adequação das mesmas.

Diante dessa imposição que subverte desenvolvimento em crescimento, alguma filosofia se faz necessária aqui: crescer para quê? Para que todos possamos consumir segundo os parâmetros da cultura norte-americana, por exemplo ou da emergente China pós inserida no mundo capitalista? Tais modelos econômicos já provaram-se inviáveis para um planeta do tamanho do nosso. Ambos modelos de consumo podem até justificar a busca por outros planetas habitáveis ou recursos tais como a água na Lua, mas não me convencerão jamais de que o esforço científico e os recursos gastos neste sentido sejam tão bem empregados, prioritariamente, quanto o seriam se falássemos e fizéssemos mais para reduzir, reutilizar e reciclar - os 3 Rs da sustentabilidade – ao qual acrescentaria o “P” da preservação dos poucos recursos intactos do qual ainda dispomos, e mais um TR, de “tecnologia reversa”, conceito que pressupõe responsabilizar os produtores em relação ao destino final de matérias – primas processadas, após serem descartadas. Ou seja: o produtor de plástico que se ocupe em removê-lo adequadamente do meio-ambiente, o produtor de alumínio, idem, o de óleo de cozinha ou lubrificantes também, e assim por diante.

Entretanto, a tecnologia reversa, para dar destino adequado a algumas substâncias nefastas ao meio-ambiente ainda engatinha, como por exemplo, as tecnologias para seqüestro de carbono da atmosfera.



Equívocos como a comercialização de créditos de carbono ganham espaço e atenção que deveriam estar sendo usados em realmente solucionar as emissões excessivas de CO2 em nossa já fragilizada atmosfera. Esbarramos, portanto, novamente na questão do consumo exacerbado em nossos dias e essa questão não prescinde de decisões políticas que serão, de cima para baixo, implementadas nos cinco continentes. Prescindem, antes, das escolhas e decisões do cidadão comum, na medida em que cada um compreender que consumir é, em si, um ato político.

Quando decido não consumir o produto “x” porque sei que o mesmo é fruto do desmatamento da Amazônia, do trabalho escravo ou infantil, estou fazendo política com minha própria carteira. E, creiam, essa é a linguagem mais facilmente entendida pelos poderes constituídos. Pode não ter um efeito imediato e direto nos caixas das empresas, se tal atitude decorrer de uma iniciativa isolada, mas a partir do momento em que tal decisão se torna coletiva e essa coletividade assume repercutir sua postura, o efeito multiplicador adquire força e voz. Grandes mudanças foram conseguidas assim e a história nos prova isso.

Mahatma Gandhi, ao convocar seu povo para a Marcha do Sal, levou milhares de pessoas ao mar a fim de coletarem seu próprio sal, boicotando os impostos que incidiam no preço final do produto. O resultado dessas ações acabou minando e colocando em xeque a supremacia dos colonizadores ingleses, tornando irreversível o processo da independência indiana. Nos anos de 1990, movimentos de boicotes contra a Shell, a Kelloggs e a Coca-Cola receberam crescente atenção da grande mídia, e os manifestantes assim protestaram contra as políticas racistas na África do Sul. As companhias afetadas pelos boicotes receberam manifestações de acionários solicitando o não investimento no país, catalisando as circunstâncias para a abolição do apartheid em 1994. Só para citar mais um exemplo de manifestação de consumidores, muito bem sucedida, menciono a mais longa campanha de boicotes da história, que durou 12 anos, lançada pelo Irish National Caucus contra a Ford Motors na Irlanda do Norte. Essa campanha terminou em 1998, quando a companhia concordou em implementar os princípios de McBride, impedindo que empresas norte-americanas subsidiassem a discriminação anticatólica naquele país. Portanto, diante dos fracassos das negociações da COP-15, que não resultaram em qualquer compromisso ambiental, social e nem tampouco econômico, nestas vésperas de Natal, tenho a mais absoluta certeza de que o verdadeiro espírito da celebração natalina, especialmente neste momento, não está em qualquer materialidade contida por sofisticadas embalagens que, já no dia 26 de dezembro, vão empanturrar as lixeiras de milhões de lares, em todo o mundo.

Antes de saber o que estamos comprando, este é o momento de saber de quem estamos comprando, como foi produzido, por quem e onde e, especialmente, se temos mesmo a necessidade daquilo. Afinal, o grande presente já nos foi dado, há milhões de anos atrás, mas não temos zelado por ele com o devido respeito. Quantos natais consumistas serão precisos para que a humanidade descubra, finalmente, que o verdadeiro espírito de Natal nasce todos os dias nas águas dos rios, na riqueza dos oceanos, nos ninhos dos pássaros, na umidade das florestas, no frescor do ar e no milagre de cada semente? O Espírito de Natal, creiam, não é só espírito, mas a força que move um enorme e poderoso ser vivo que mal conhecemos, que faz parte de cada um nós e dele somos um pedaço. Assim como os outros seres vivos, que dele dependem para existir, necessita de zelo e respeito, quesito no qual a espécie humana ainda tem muito o que aprender.

Feliz Natal aos que me acompanharam até aqui... e paz na Terra, aos homens de boa vontade.

Marta Caputo é coordenadora do I Fórum Empresarial de Responsabilidade Social e Sustentabilidade - Bauru 2009 http://www.fers.com.br

Comentários
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...!
Fábio 21-12-2009 23:25:30

Caramba...
Sem comentários, não há palavra, letra, ponto ou virgula a mais para colocar nesse desabafo.
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